Os ex-combatentes são portugueses com P, como Portugal

Os ex-combatentes são portugueses com P, como Portugal


Alguns dos problemas mais significativos dos nossos ex-combatentes estão relacionados com a saúde. Um número considerável de veteranos que serviram na Guerra do Ultramar sofre de vários tipos de lesões, para além de outros problemas incluindo o transtorno de stress pós-traumático, depressão, ansiedade, uso problemático de álcool e pensamentos suicidas. Muitos ex-combatentes sofrem de vários problemas de saúde, quer ao nível físico quer da mente.

Que apoio esperado e DEVIDO, recebem do Estado os ex-combatentes? Quem os enviou para a frente de batalha?

Como qualquer português, têm direito ao serviço nacional de saúde. No entanto, estes não são uns utentes quaisquer. São homens e mulheres [lembro as enfermeiras paraquedistas] que experienciaram o que a maior parte de nós, felizmente, não viveu.

Por isso, mereciam, desde o seu regresso ao país e aos tempos de paz, especiais cuidado e atenção.

Não se trata de igualar estes homens e mulheres a todos os portugueses, trata-se sim de os honrar e de reconhecer o seu papel na defesa do que, à altura, o regime pensava ser do interesse de Portugal. Deixar de os tratar com complacência, atirando-lhes com algumas migalhas de todo o bolo que merecem.

Têm visitas grátis a museus?

Quantos deles não conseguem deslocar-se, quantos vivem em locais remotos do país, onde os transportes públicos gratuitos não existem?

De que lhes serve o complemento de 100 euros que recebem por ano?

Quantos têm 300 ou 400 euros por mês para [sobre]viver?

Quanta juventude se perdeu de facto e no ato da guerra?

De que lhes serve terem ido para a guerra, deixando-nos a nós, em segurança?

Está na altura de se pensar nestes ex-combatentes. Está na altura de dizer que o país os forçou a sair de aldeias distantes [onde eram o único sustento da família], atirando-os para o porão de navios, como o Vera Cruz, por exemplo. Foram longos dias de viagem com uma garantia: eram carne para canhão.

Ninguém os reconhece. Ninguém os entende. Apenas e só porque ninguém lhes ocupou o lugar.

Não se trata de fazer a apologia da guerra, trata-se de a enquadrar na História de Portugal e de fazer o que deve ser feito, de uma vez por todas. Trata-se de entender que o fervor da revolução que os apelidou de traidores, devia-lhes, isso sim, um pedido de desculpas. Foram OBRIGADOS a ir para a guerra.


Pais, avós, tios, primos e amigos de todos nós estiveram no horror de uma guerra que não pediram, mas onde foram obrigados a participar ativamente. Onde perderam a vida, familiares, amigos, camaradas de companhia.
Tempo de os ouvir. Tempo de os honrar. Não pela justiça da guerra, mas por justiça para com eles e elas.

 

Dra. Ana Pinheiro